Pacific News #307: A Identidade
Assunto do momento: Uma operação de venda de carteiras de motorista de mais de 153 milhões de pessoas assola a América do Norte.
O que aconteceu? Um novo serviço na dark web, batizado de Nexus, começou a vender scans digitais de mais de 153 milhões de carteiras de motorista de pessoas nos EUA e no Canadá. O jornalista Brian Krebs (Krebs on Security) rastreou a origem do vazamento até uma empresa de verificação de identidade da Louisiana, a idscan.net. Horas depois da reportagem, o FBI abriu uma investigação oficial sobre o caso.
Por que isso importa? Vemos um problema estrutural claro, onde empresas de verificação de identidade viraram um ponto único de falha. Documentos vazados são diferentes de senhas vazadas, uma vez que não podem simplesmente serem trocados. Além disso, algumas pessoas afetadas nesse vazamento podem ser pessoas em situações sensíveis, como vítimas de violência doméstica e participantes do programa de proteção a testemunhas dos EUA.
O cenário geral: O Nexus foi anunciado essa semana num fórum russo de cibercrime chamado Exploit, e afirma ter mais de 170 milhões de documentos de identidade no total, que incluem cartões de identificação, documentos de viagem e até carteirinhas médicas. Segundo o próprio serviço, os dados vêm sendo exfiltrados continuamente há mais de um ano, e o volume de registros cresceu quase 400 mil em apenas 24 horas durante a apuração da reportagem.
A investigação: Krebs recebeu sua própria carteira de motorista como "amostra grátis" no anúncio do serviço e, a partir daí, cruzou os timestamps das imagens vazadas com viagens reais de amigos, familiares e outros pesquisadores de segurança. Nesse ponto de partida, cruzou dados até chegar a uma origem em comum: o sistema de verificação de identidades “idscan.net”, que atua com grandes marcas como Target, FedEx, Motorola, entre outras.
No Brasil: O problema não é exclusividade americana. O Fantástico revelou um esquema parecido, onde cibercriminosos usam credenciais roubadas de servidores e magistrados do Tribunal de Justiça de Goiás para fraudar sistemas judiciais, chegando a alterar 140 registros no Banco Nacional de Mandados de Prisão. A investigação, que rastreou fóruns clandestinos por um mês, também encontrou "painéis" vendendo dados de Imposto de Renda, saúde e compras online, ligados a uma rede criminosa internacional conhecida como "The Com".
Quando câmeras de vigilância ganham um buscador de IA

O que aconteceu? A Flock Safety criou uma ferramenta de IA que permite à polícia dos EUA pesquisar imagens de sua rede de câmeras usando descrições em linguagem natural, como aparência, roupas ou características de uma pessoa. A ferramenta também pode monitorar uma área e alertar quando alguém que corresponda à descrição aparecer nas câmeras.
Por que isso importa? A tecnologia amplia significativamente o alcance da vigilância por câmeras, trazendo velocidade e escala em investigações. O debate que surge é que os mecanismos de proteção contra buscas abusivas ainda dependem, em grande parte, do comportamento e da fiscalização dos próprios usuários.
Na prática: Casos de abuso policial da ferramenta já foram reportados.
- No Texas, um xerife pesquisou mais de 83.000 câmeras em busca de uma mulher que havia feito um aborto.
- Em Illinois, agentes federais de imigração acessaram dados das câmeras estaduais, em violação à lei.
- Em Kentucky, um policial foi preso após usar as câmeras para rastrear a ex-namorada mais de 2 mil vezes.
- Em Savannah, seis funcionários da polícia foram demitidos após fazer buscas por motivos pessoais e compartilhar acesso ao sistema com uma agência externa.
A reação: Nos últimos anos, a Flock tem enfrentado rejeição à sua tecnologia. Departamentos de polícia em todo o país cancelaram contratos, e conselhos municipais que antes aprovaram a Flock votaram, em silêncio, para remover as câmeras. A preocupação por trás desse movimento surge da falta de transparência da empresa sobre como seus sistemas de IA funcionam, como os dados são compartilhados e quem pode acessá-los.
A resposta: A Flock defende que suas ferramentas foram desenvolvidas para ajudar a polícia a encontrar informações relevantes, com “salvaguardas claras” sobre como a tecnologia pode ser usada. A empresa também afirma que o uso responsável da ferramenta depende dos próprios departamentos de polícia.
Papo Rápido
@Ataques
Um relatório da Symantec revelou que grupos de ataque estão abusando do Node.js para executar scripts maliciosos em campanhas contra órgãos governamentais, empresas de tecnologia e hotéis desde fevereiro de 2026. Como o código malicioso roda dentro de scripts interpretados, a técnica dificulta a detecção por assinatura. Os invasores usam a abordagem para manter acesso persistente e se comunicar com servidores de comando por meio da técnica EtherHiding, que oculta endereços de C2 na blockchain. (TheHackerNews)
@Atualizações
A Plex pediu que usuários atualizem imediatamente o Plex Media Server e o Plex Desktop após corrigir múltiplas falhas de segurança ainda sem CVE atribuído, que afetam a versão 1.43.2 e anteriores do servidor. A empresa recomenda migrar para o Plex Media Server 1.43.3 e o Plex Desktop 1.115.0 o quanto antes, já que os detalhes técnicos ainda não foram divulgados publicamente. (BleepingComputer)
O Dropbox alertou cerca de 5 mil usuários após uma falha em uma antiga integração com a Lenovo permitir que atacantes acessassem contas sem precisar da senha do Dropbox. Nenhuma das contas comprometidas tinha 2FA ativado. Após descobrir o problema, o Dropbox encerrou as sessões vinculadas aos IDs da Lenovo, desfez a integração e recomendou que os usuários trocassem suas senhas e ativassem o 2FA. (TheRegister)
@Mundo
A ONG sérvia SHARE Foundation confirmou que ao menos 14 pessoas na Sérvia foram alvo de spyware avançado desde o início de 2026, incluindo integrantes do movimento estudantil, ativistas, um deputado e um vereador, todos ligados à oposição. O caso coincide com as eleições locais de março de 2026 e envolve tanto o Pegasus quanto uma nova versão do spyware NoviSpy, identificado pela Anistia Internacional. Pesquisadores apontam que o episódio se soma a um padrão de vigilância estatal contra a oposição sérvia às vésperas de um novo ciclo eleitoral, ampliando a tensão política e as denúncias de repressão digital no país. (ShareFoundation)
Um vazamento expôs dados de mais de 412 mil compradores do The Town 2025, incluindo nomes, e-mails, CPFs, telefones e informações de ingressos e pagamentos, com 251 mil registros de brasileiros. Os dados estão sendo vendidos na dark web por US$ 10 mil e, segundo o próprio vendedor, podem ser usados em fraudes bancárias, empréstimos e golpes envolvendo chips de celular.(SecurityAffairs)
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Escrito por: Thaís Hudari Abib, Murilo Lopes e Cíntia Baltar
Arte: George Lopes e Anselmo Costa