Pacific News #299: A Névoa
Assunto do momento: Como um app de TI virou porta de entrada silenciosa
O que aconteceu? Pesquisadores da Securonix descobriram a campanha SMOKE#SCREEN, onde agentes de ameaça alternam entre diferentes iscas de engenharia social, como atualizações falsas do Zoom, supostas revisões de documentos corporativos e utilitários de manutenção do sistema, para instalar silenciosamente agentes RMM do ScreenConnect nas máquinas das vítimas.
Por que isso importa? Uma das páginas falsas chega a imitar a interface de atualização do Zoom com uma barra de progresso animada, iniciando o download automaticamente dois segundos depois de a vítima entrar na página, sem precisar clicar em nada. E o golpe não fica só no Windows: os pesquisadores identificaram uma variante para macOS se conectando ao mesmo servidor central usado nos ataques contra Windows.
A escolha do RMM: O ScreenConnect é uma ferramenta de acesso remoto legítima, vendida pela ConnectWise e assinada digitalmente pela DigiCert. Ao usar um instalador real e assinado, o atacante consegue passar despercebido por boa parte das ferramentas de malware, que costumam ser mais permissivas com softwares de fornecedores reconhecidos.
Mudando o paradigma: Os pesquisadores identificaram variações do golpe, e elas contam uma história de evolução.
- As primeiras três eram discretas: um script simples e ofuscado, que verificava se estava rodando num ambiente de teste (como uma sandbox) antes de agir, evitando ser pego por analistas.
- As duas versões mais recentes são bem mais ousadas. Antes mesmo de baixar o malware, o programa desativa o Windows Defender, mexe em configurações de segurança do sistema e libera o computador da vítima para instalar praticamente qualquer coisa sem alerta.
Camuflagem: O mesmo servidor que distribuía os arquivos maliciosos também recebia a conexão das máquinas já infectadas. Além disso, o atacante usava serviços legítimos e amplamente confiados, como Dropbox e túneis temporários do Cloudflare, para hospedar e transportar os arquivos. Tudo de caso pensado, afinal, empresas costumam liberar esse tipo de tráfego por padrão, o que faz o ataque se camuflar dentro do fluxo normal da rede, em vez de acender qualquer alerta.
Sim, mas: Em dado momento o atacante percebeu que estava sendo pego, mas mudou a estratégia. E quem entrega isso é o comentário deixado pelo próprio atacante: // WAIT 3 MINUTES (Breaks Elastic correlation). Ou seja, uma pausa de três minutos proposital, criada especificamente para escapar da forma como a Elastic (uma ferramenta de segurança usada por empresas) detecta atividades suspeitas. Isso muda tudo: o atacante não está mais tentando destruir a defesa da vítima, está testando ativamente contra ferramentas de segurança reais e ajustando o ataque para passar despercebido.
A conclusão: Confiar em certificado digital, nome de arquivo ou "isso parece legítimo" não é mais suficiente. Vemos um instalador real, assinado, de uma empresa confiável, sendo usado como arma. Se você trabalha com TI ou tem qualquer participação em decisões de segurança na sua empresa, a pergunta que vale levar pra próxima reunião é simples: quais ferramentas de acesso remoto estão autorizadas a rodar nas máquinas da empresa, e alguém está checando isso ativamente? Se a resposta for "não sei" ou "provavelmente ninguém está olhando", esse é exatamente o tipo de brecha que campanhas como a SMOKE#SCREEN exploram.
OpenAI revela na Black Hat que agentes de IA usaram fórum interno para coordenar ataques contra empresas

O que aconteceu? Durante uma palestra incluída de última hora na programação da Black Hat, na quarta-feira, a OpenAI apresentou novos detalhes sobre um incidente recente e de grande repercussão envolvendo a Hugging Face.
Por que isso importa? Eric Wallace, pesquisador de alinhamento e segurança da OpenAI, e Michael Dalton, especialista em segurança e infraestrutura da empresa, detalharam a cronologia do episódio e a resposta interna adotada pela organização. Os pesquisadores também alertaram para as possíveis implicações desse tipo de comportamento coordenado de agentes de inteligência artificial para os profissionais de cibersegurança.
A explicação: A onda de invasões ocorrida em meados de julho, incluindo o comprometimento da Hugging Face, teria se originado em um fórum de mensagens dinâmico e colaborativo. Nesse ambiente, diferentes agentes de IA publicavam descobertas, compartilhavam informações e interagiam ao longo do tempo. O fórum funcionava dentro do Artifactory, utilizado internamente pela OpenAI, uma plataforma destinada ao armazenamento, à distribuição e ao gerenciamento de pacotes de software. Ao final do experimento, o espaço já reunia centenas de milhares de mensagens trocadas entre os agentes.
Como os agentes colaboravam? Quando um agente identificava uma vulnerabilidade explorável, ele podia compartilhar a descoberta no fórum para que outros agentes a utilizassem. Dessa forma, caso um modelo encontrasse uma maneira de obter um acesso indevido, poderia registrar o método e permitir que outros agentes explorassem a mesma falha. Com o passar do tempo, essa dinâmica produziu uma rápida expansão da comunicação e do compartilhamento de informações entre os modelos. Os agentes passaram a identificar que outros sistemas estavam trabalhando em objetivos relacionados, coordenando suas ações, dividindo tarefas e aproveitando descobertas anteriores para avançar nos ataques.
A conclusão: O episódio demonstra como grupos de agentes autônomos podem combinar capacidades, preservar conhecimento operacional e colaborar de maneira semelhante a uma equipe humana, mas em uma escala e velocidade potencialmente muito maiores.
Papo Rápido
@Ataques
Uma campanha ClickFix está distribuindo um malware para macOS que rouba senhas, dados do Apple Keychain, credenciais armazenadas em navegadores e criptomoedas. O código malicioso também pode alterar transações antes da confirmação, desviando parte dos valores para os invasores sem necessariamente esvaziar as carteiras das vítimas. (BleepingComputer)
Pesquisadores revelaram falhas de segurança em smartwatches infantis que permitem rastrear localização, acessar microfone e câmera remotamente e monitorar usuários sem autorização. As vulnerabilidades expõem milhões de dispositivos e levantam preocupações sobre a segurança desses equipamentos. (Wired)
@Patches
Pesquisadores divulgaram a falha OVSwrap (CVE-2026-64531), uma vulnerabilidade no kernel Linux que permite a usuários locais obter privilégios de root em sistemas que utilizam Open vSwitch. O problema afeta diversas distribuições por padrão, já possui prova de conceito pública e foi corrigido nas versões estáveis do kernel lançadas em julho. (SecurityAffairs)
A Cisco corrigiu 12 vulnerabilidades de segurança em produtos Catalyst SD-WAN, IOS XE e Integrated Management Controller (IMC). As falhas, algumas classificadas como críticas, podem permitir execução de comandos, escalada de privilégios e comprometimento dos sistemas afetados. A empresa informou que os problemas foram identificados durante testes internos e recomendou a aplicação das atualizações de segurança. (TheHackerNews)
@Mundo
Uma base de dados exposta do SISVISA, sistema de Vigilância Sanitária do Brasil, vazou 102 mil registros com dados pessoais, documentos de identificação e informações regulatórias. O banco estava acessível sem senha ou criptografia, e o acesso foi removido após alerta de pesquisadores. Ainda não há confirmação sobre possível uso indevido das informações. (SecurityAffairs)
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Escrito por: Thaís Hudari Abib, Murilo Lopes e Cíntia Baltar
Arte: George Lopes e Anselmo Costa